A pressão do relógio

A falta de tempo é um dos piores sintomas da nossa sociedade moderna, industrializada, acelerada.

Fast Forward, Underground Garage

A pressão do relógio, das tarefas por realizar, dos empregos em que cada segundo utilizado ou por utilizar significa produtividade ou falta dela, tudo influencia a forma como vivemos as nossas vidas pessoais e familiares, como experienciamos e, acima de tudo, como desfrutamos do que nos é dado a viver enquanto seres neste planeta.

A gravidez é igualmente influenciada por esta obsessão. Tudo começa com a determinação precisa do momento da concepção e, consequentemente, de uma data prevista para o parto. O método comummente utilizado pela medicina alopática fixa-se na contagem do tempo passado desde a data da última menstruação e, actualmente, a realização frequente de ecografias auxilia a encontrar a idade gestacional do embrião.

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O relato de parto do Ravi

Quando descobri que estava grávida pela segunda vez, sabia no meu coração que correria tudo bem e que estaríamos apenas nós presentes, sem necessidade de uma parteira. Esta foi uma decisão pensada, consciente e muito segura que não deve ser assumida de ânimo leve e sem profunda reflexão.

Sitzend

Convidámos quatro amigas próximas para vir na semana em que eu pensava que o parto ia acontecer. As quatro aceitaram e tivemos um divertido «festival do parto», mas a semana foi-se e bebé, nem vê-lo. Então todas foram à sua vida menos a Daniela e família, que tinham chegado antes e connosco permaneram. Foi como aconteceu e foi perfeito.

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Toques: Ferramenta útil ou intervenção desnecessaria?

Inserir os dedos na vagina de uma mulher deve ser uma das formas mais íntimas ou invasivas de tocar o corpo de uma mulher. Ainda assim, este continua a ser o método mais utilizado para determinar a progressão do trabalho de parto.

Existem de facto muitas maneiras para uma parteira avaliar o quanto o trabalho de parto de uma mulher já progrediu, tais como:

  • escutar os sons que ela faz;
  • sentir o odor presente na divisão;
  • verificar a linha púrpura que pode surgir na pele entre as nádegas;
  • notar como a mulher está a interagir com os que a rodeiam.

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Inserting one’s fingers into a woman’s vagina must be one of the most intimate or invasive ways to touch a woman’s body. And yet, this continues to be the most commonly used method of assessing a woman’s progress in labour.

There are in fact many ways that a midwife can assess how far a woman’s labour has progressed, such as: listening to the sounds she makes; observing the smell in the room; checking for the purple line that may rise on the skin between the buttocks or simply noticing how the woman is interacting with those around her.
As well as being an invasive and sometimes painful procedure that may make a labouring woman feel uncomfortable or tense at a time when she needs to feel relaxed and at ease, vaginal exams (VEs) can be problematic for a number of reasons.

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A dor do parto

Extraído de ‘Sentidos do Nascer. Percepções sobre o Parto e Nascimento‘, uma exposição imersiva e interativa que viajou pelo Brasil em 2015. (English translation below)

Se o parto dói? Sim, sempre doeu. Desde os primórdios da humanidade. A dor, além de sinalizar que o bebé está pronto para nascer, é importante para que a mulher volte sua atenção para dentro de si mesma. A dor do parto desliga os sentidos do mundo, distancia o corpo do que é desnecessário, ajuda a dimensionar a relevância do que é trazer à luz uma nova vida.

Death/Birth V10

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O nascimento do Leo

Rita Martins conta a linda historia do nascimento do seu filho. (English below)

Sempre pensei que levaria a vida como uma eterna viajante. Desde pequena que trazia em mim o desejo de levantar asas e deixar o ninho para trás. Recordo-me como me perdia com os olhar e imaginação nos mapas e globos e percorria cada contorno de um mundo ainda desconhecido com vontade de o sorver e tornar real. Mais tarde, seguindo o chamamento de infância, entreguei-me à contínua descoberta, calcorreando solos que me guiavam, emergindo-me em culturas que não a minha, desafiando limites e possibilidades. Sentia-me viva, forte, pioneira. A viagem mais verdadeira, contudo, aconteceu bem depois, já numa fase madura da minha vida, e não a bordo de um meio de locomoção, mas sim dentro de mim: em 2015, engravidei do meu filho Leo. Eis como ele nasceu…

Sê bem-vindo, Ser do Amor!

“O teu cheiro está diferente hoje!”, sussurrou-me o Pedro suavemente ao ouvido naquele acordar domingueiro. Sorrimos um para o outro e, sem pensar mais no assunto, abraçámo-nos longamente num encaixe corporal que a minha barriga orgulhosamente redonda nos permitiu.

bed linen

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Parceria com site Vida Ativa e primeiro texto

Uma mãe Nasceu desenvolveu uma parceria com o site Vida Ativa onde irá publicar alguns textos sobre a nossa perspectiva e o nosso projecto de informação para futuras mães e pessoas relacionadas com gravidez e partos. Assim, não te admires se vires textos com apenas os primeiros dois parágrafos e o link para o texto inteiro no site VidaAtiva.

Aqui fica o primeiro, esperamos nós de muitos, texto já publicado.

ONDE PÁRA O TEMPO: a noção de tempo na gravidez

O tempo é um tema recorrente na sociedade de hoje. Tudo roda à volta do tempo. Começamos o nosso dia com um alarme que nos diz que horas são, começamos a nossa manhã atrasados para o trabalho, corremos e stressamos e o nosso dia já está marcado, continuamos a correr e a stressar o dia todo. Há tanto para fazer, enchemos as nossas agendas com todo o tipo de reuniões e tarefas e fazemo-nos tão ocupados para podermos fazer parte de uma comunidade stressada sempre em movimento.

Há muito tempo atrás, a natureza determinava a passagem do tempo. A Lua, o sol, as estações determinavam o que plantar, colher e quando, quando trabalhar e descansar. Os seres humanos estavam mais conectados consigo próprios e ouviam os seus corpos, permitiam-se ter tempo para receber o dia a noite, o tempo meteorológico, as estações e afins. Respeitavam a sua própria natureza. Em muitas sociedades, ainda governadas por mulheres, eram elas que conduziam o ritmo da comunidade.

Para ler o artigo total, clica aqui.

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Uma mãe Nasceu developped a partnership with the online site Vida Ativa, where we will publish some texts about our perspective and our information project for future moms and interested people on pregnancy and birth. This way, don’s be surprised if you see our texts with just two paragraphs and the link to their website with the full copy. Here is the first, we hope of many, texts already published.

HOW TO STOP TIME – a notion of time during pregnancy
Time is a current subject in today’s society. Everything comes and goes around time. We start our day with an alarm that lets us know the time, we start our morning late for work, we run and stress and our day is already set, we continue to run and stress all day long. There is so much to do, we fill our agendas with all sorts of meetings and tasks and we make ourselves busy so we can fit in in a ”running and stressed community”.

A very long time ago, nature would determine the passing of time. The moon, sun, seasons would say what and when to plant and to pick, when to work and to rest. Mankind was more connected to themselves and they would listen to their bodies, they would allow themselves to have the time to receive day and night, the weather, the seasons and so on. They would respect their own nature. In many societies, still ruled by women, women would conduct the rhythm of community.
Today, time rules our lives. Clocks, the unnatural speed of processes, the fast and fastest production, the urgency that lies behind everything is really present. We barely have no time to breath with so much to do, to show what we have done and we do not stop to think if this is what we want for ourselves.
And all this speed is very much manifested in today’s pregnancies and births. Babies no longer have the time to show their mothers they are ready to be born. Moms no longer listen to their bodies and their wisdom and few are those that truly connect to their babies but through machines that assure them that all is well with them both. And doctors they just want to rush home to their families, to their days off, to their lives and time is just a detail that everybody can bend. And today women trust more their doctors than themselves.
I am not saying that now everything should go back in time and machines should be set a side. I am not saying that C-sections should not be done or only a natural birth is the way to go. What I want to say is that women should be more in touch with what they want, to what they know and to how they would like to have their babies and that should be respected whenever possible. From pregnancy to labour everything has to take the time that is needed and no baby should be born days, weeks or even months before they are ready for that.
Some time ago a woman I know was sharing how she was in Denmark and she was in her niece’s birth that ocurred in a hospital set. It was a 44 hour birth with a lot of patience and confidence and no one was in a rush, everyone worked for mother and baby to take their time in what was happening and at the end my friend was just happy to be able to see this alive. Her question was very much my own, why should we be surprised because of a 44 hour birth. It was what had to happen and everything was perfect. And above all, everyone was with what was happening, no one wanted to change anything. Every one respected mother baby and time as it was.
Usually we want to avoid pain and get pleasure, so I guess that is why there is so much hurry about a labour setting, moms want to run away from pain, husbands cannot help their wives so they also want it to be fast, doctors try to help by giving their epidurals and cesarians, but why not just being with what is happening at the moment?
Today, we already start seeing some women that are looking for different solutions in their labours, that are questioning their options, that want to respect their bodies, their processes and their own time. And all we need I guess is to know that there are options we can choose from and we do not need to run against time. We can much on the contrary accept things as they happen and that is ok, time is not a problem, it has never been.

O parto da Sashi

A minha parteira, Françoise, afectuosamente conhecida por Mamacita, e a sua assistente, Alexandra, chegaram no dia 13 de Janeiro e instalaram-se na casa da minha vizinha até ao nascimento do nosso bebé. Numa conversa com a Mamacita no dia seguinte, declarei que me sentia finalmente pronta para que este bebé, o meu terceiro, chegasse.

Nas primeiras horas do dia 15, senti ondas de sensações que começavam no meu sacrum e se moviam para a zona do meu ventre. Estes foram os primeiros sinais físicos de que o parto se encontrava iminente.

Full Moon Rising - EXPLORE #465!  :)

No entanto, a espera demoraria ainda mais nove dias, tempo durante o qual passei por uma lenta e suave preparação a muitos níveis para a chegada do bebé. Esses dias formam uma parte importante do relato de parto da minha filha. Experienciei muitas emoções diferentes, desde alegria e antecipação até tristeza e desilusão; dei belos passeios na natureza e banhei-me à meia-noite na luz leitosa da lua cheia; desenvolvi uma relações próxima e de confiança com a minha parteira enquanto tricotávamos e conversávamos até ao anoitecer daqueles entardeceres de inverno; as mulheres da minha comunidade local reuniram-se em círculo em torno de mim para abençoar esta nova etapa da minha jornada na maternidade; e também dancei e chorei sozinha, desejando que a espera terminasse para que eu pudesse conhecer o meu bebé.

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