Desde que participei na conferência Nascer em Amor organizada pela Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto , tenho vindo a contemplar alguns assuntos diferentes sobre a gravidez e o parto e a aprofundar o meu conhecimento dos direitos humanos nesta área.

Vivi a maior parte da minha vida no Reino Unido e como dei à luz aos meus dois filhos lá, tive a oportunidade de beneficiar de um sistema de saúde materno relativamente progressivo e liberal. Contudo, agora apercebo-me que independentemente dos seus desafios contínuos, o que experienciei foi um previlégio raro, e que aqui em Portugal como em muitos outros países no mundo, mulheres grávidas e em trabalho de parto encontram dificuldades frequentes em fazer escolhas autónomas acerca de onde, como  e com quem recebem cuidados e dão à luz os seus bebés. ais ainda, dar à luz, apesar de ser um evento diário, tornou-se num evento recheado de complicações.

O acto de dar à luz deve ser tido em consideração e, no entanto, é precisamente neste momento que uma mulher pode ser sujeita a preconceitos e abusos dos seus direitos humanos básicos, como a sua dignidade e privacidade.

Estarão simplesmente os hospitais sob pressão, cuidando de muitas mulheres ao mesmo tempo e a enfrentar escassez de pessoal e dinheiro?

Ou há uma causa mais estrutural no cerne dos maus tratos que as mulheres recebem durante o período perinatal?

Dar à luz é um processo que todas as mamíferos fêmeas podem passar. Está bem, aceito  que, enquanto seres humanos temos o pequeno pormenor do neocortex (mente racional) que nos atrapalha. Mas como muitas mulheres que tiveram partos não perturbados podem testemunhar, o cocktail das hormonas e endorfinas libertadas durante o parto pode ajudar a ultrapassar isso.

Então porque é que o trabalho do parto e o parto se tornaram uma tarefa tão complexa e difícil para tantas mulheres?

Porque é que durante esse período elas são tratadas como se fossem menos capazes do que outros pacientes de tomar decisões informadas e poderão, em nome da segurança, submeter-se á abusos físicos e emocionais por parte dos profissionais de medicina?

A resposta é complexa. Tentarei explorar alguns factores. Por favor, lembrem-se que estas são as minhas reflexões pessoais. Peço-vos partilhem as vossas ideias nos comentários.

Um elemento que me atrevo a sugerir é que existe um medo e uma certa repulsa entranhadas relativamente ao simples acto fisiológico de dar á luz um bebê que se desenvolveu ao longo do último século, ou séculos.

Por paradoxal que pareça, durante o parto uma mulher poderá estar no seu estado mais poderoso ou mais vulnerável. Poderoso, porque ela está ….. a experiênciar um ritual de passagem universal e está em transição para um novo papel na sua vida e na comunidade.Poderoso porque está a passar por um das maiores actos físicos da sua vida. Vulnerável, porque está fisicamente exposta, num momento que requer que ela se feche dentro de si mesma, desassociada do mundo que a rodeia e porque a chegada em segurança do bebê que ela carregou por nove meses está em risco.

Igualmente paradoxal, argumentaria que são ambos estes aspectos contrastantes do parto que fazem da mulher alvo de atitudes e tratamentos negativos e de intimidação.

Gravidez e procriação são domínio das mulheres e uma ameaça directa aos fundamentos do domínio patriarcal que tem governado o ‘status quo’ há centenas de anos.

O estado de poder, animalidade, visceralidade e liberdade de constrangimentos sociais que caraterizam um parto fisiológico tem sido denegridas pela cultura moderna.

Os corpos das mulheres, seios e vaginas tem sido domados e sexualizados para o benefício da objectualização e prazer da sociedade.
O acto de dar á luz transforma o ‘objecto passivo mulher’ num agente vital da continuidade da raça humana.

Dar á luz fisiologicamente (sem intervenção médica) significa quebrar tabus sociais: uma mulher nua, de gatas, a vagina aberta, sangue a pingar e fezes a escapar.
Quem assiste ao parto terá de assumir completa discrição, humildade e a capacidade de estar quieto e ‘fora do caminho’ permitindo assim que o processo se desenvolva sem distúrbios.

A mudança do parto como ocorrência doméstica para um que se realiza num ambiente medicalizado, tornou o parto muito mais complicado do que era antes.

É claro que a medicina ocidental tem tido resultados importantes e positivos como a redução de infeções e a redução significativa das taxas de mortalidade infantil e materna. Mas, ao mesmo tempo, profissionais médicos tem interferido com os elementos primordiais e vitais do trabalho do parto e parto, como é evidente no aumento de ocorrências de intervenção tal como a indução através do uso de occítocina sintética.

Para além disto, um excesso de ênfase na limpeza e esterilização poderão ser contra producentes. Por exemplo, um bebê que é lavado, limpo e vestido imediatamente após o nascimento não beneficiará da exposição á microbiota materna (sistema integrado de miro-organismos benéficos) a través do contacto prolongado pele-a-pele que contribuirá para a saúde e imunidade a longo prazo do bebê. Para não falar da interferência na ligação emocional vital que acontece nos primeiros minutos e horas após o parto.

Pela sua natureza reducionista, a abordagem da medicina ocidental falta levar em conta todo o cenário, tal como o impacto de uma experiência traumática, no bem estar a longo prazo da mãe e bebê.

Existem medidas que podem ser tomadas para que a intervenção seja menos comum nos partos hospitalares. Esta é uma discussão importante que necessita de ter lugar em países como Portugal, onde o cuidado perinatal é altamente medicalizado. Igualmente importante é a necessidade de contrariar atitudes e suposições negativos dirigidas ás mulheres que dão á luz em unidades obstétricas.

Dar á luz é um acto intimo e privado. Para que os hormônios necessários sejam libertados é imprescindível um ambiente equivalente ao acto de fazer amor.

Gostariam de fazer amor num quarto altamente iluminado e estéril, e ser observadas por um estranho ou mais?

Poderá haver algumas pessoas que não se importariam. Mas para a maioria, o ambiente óptimo para fazer amor, e defendo, para dar á luz, será um local privado, onde nós poderemos sentir completamente seguros, desinibidos e sem medo de interrupções. Onde se pode gemer e seguir os instintos que guiam o corpo para dar á luz um bebê em segurança.

Apesar de sexo normalmente não se realizar num hospital, algumas mulheres sentem-se mais seguras a dar á luz nesse tipo de ambiente, enquanto outras preferem um ambiente caseiro e familiar.

A outra grande diferença entre estes duas cenários é que no momento do parto, muitas mães desejam e beneficiam da presença de uma mulher experiente e de confiança que a assegura e proteje de distúrbios. Esta poderá ser uma parteira, doula, amiga ou familiar.

Chego assim a um dos pontos chave que nos impeliu a criar o movimento ‘Uma Mãe Nasceu’:

As mulheres e os seus familiares necessitam de acesso a informação imparcial acerca das suas opções e direitos na maternidade. Necessitam de apoio para compreender as implicações destas decisões que apresente uma perspectiva equilibrada acerca das vantagens e desvantagens de dar á luz num hospital.

Para que haja menos intervenção e trauma no parto hospitalar precisamos de formação contínua, diálogo e ‘desconstrução de mitos’ entre profissionais de saúde, e duma estratégia nacional que traga uma mudança positiva.

De acordo com os direitos humanos básicos, é vital que as mulheres tenham a oportunidade de tomar todas as decisões acerca de onde, como e com quem querem que se realize o nascimento dos seus bebês.

Isto implica tornar o parto domiciliar e o modelo de cuidados por parteiras opções viáveis em países como Portugal, onde a infra-estrutura para que tal aconteça ainda não existe.

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Since attending the Nascer em Amor conference organised by the Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidéz e Parto , I have been contemplating some of the different issues surrounding pregnancy  and childbirth and deepening my understanding of human rights in this area.

Having lived most of my life in the UK and given birth at home to my first two children there, I was able to benefit from a relatively progressive and liberal maternity care system. However, now I realise that despite its ongoing challenges, that was a rare privilege, and that here in Portugal as in many countries around the world, pregnant and birthing women continually face difficulties in making autonomous choices about where, how and with whom to receive care and give birth to their babies. Moreover, giving birth, despite being a daily event, has all too often become fraught with complications.

The act of giving birth should be held in the highest regard and yet it is at precisely this moment that a woman can be subject to prejudice and abuse of her basic human rights such as dignity and privacy.

Is it simply that hospitals are under pressure, caring for too many women at once and facing shortages of staff and money?

Or is there a more fundamental cause at the core of the maltreatment that women can receive during the perinatal period?

Giving birth is a process that every female mammal goes through. OK, granted, as human beings we have the small matter of the neocortex (rational mind) getting in the way. But as many women who have experienced undisturbed births will testify, the cocktail of hormones and endorphins released during labour can help us override that.

So then, why has labour and birth become such a complex, difficult task for so many women? And a time at which women are treated as though they are less capable of making informed decisions than medical patients and may, in the name of safety, undergo physical or emotional harassment and abuse by medical professionals.

The answer is complex. I will only attempt to explore a few factors here. Please remember that these are my own personal reflections. Please share you own thoughts in the comments below.

One element that I would dare to suggest is that there is a deeply engrained fear and revulsion of the simple physiological act of birthing a baby, which has developed over the last century or centuries.

Paradoxical as it seems, during birth, a woman can be at her most powerful and also her most vulnerable. Powerful, because she is going through a universal rite of passage and transitioning to a new role in her life and community. Powerful because she is going through one of the greatest physical feats of her lifetime. Vulnerable because she is physically exposed, required to go inside herself, disassociate from the world around her and because the safe arrival of the baby she has carried for nine months is at stake.

Equally paradoxically, I would argue that it is both these contrasting aspects of birth that make women targets of negative attitudes, treatment and scaremongering.

Pregnancy and childbearing are the domain of women and a direct threat to the foundations of patriarchal rule that has governed the status quo for hundreds of years now.

The state of power, animality, viscerality and freedom from social constraints that characterise a physiological birth have been denigrated by modern culture.

Women’s bodies, breasts and vaginas have been tamed and sexualised for the benefit of society’s objectivisation and pleasure.

The act of giving birth transforms the passive object of woman into a vital agent of the continuity of the human race.

Giving birth physiologically (without medical intervention) means breaking society’s taboos: a woman naked, on all fours, her vagina open, blood dripping and faeces escaping. Birth attendants need to have complete discretion, humility and the ability to stay quiet and out of the way to allow the process to unfold undisturbed.

The shift from birth as a domestic occurrence to one that takes place in a medicalised setting has made birth more complicated than it used to be.

Of course, Western medicine has brought important positive outcomes like reduced infection and significant reduction in maternal and infant mortality rates. But, at the same time, medical professionals have interfered with the vital primal elements of labour and birthing evident in the increased occurrence of intervention, such as induction and augmentation through the use of synthetic oxytocin.

Furthermore, over-emphasis on cleanliness and sterility can be counterproductive. For example, a baby who is taken away and cleaned and dressed immediately after birth will not benefit from exposure to the mother’s microbiota (integrated system of beneficial micro-organisms ) through prolonged skin-to-skin contact, which contributes to his or her long-term health and immunity. Not to mention interfering with the vital emotional bonding that takes place during the first minutes and hours after birth.

By its reductionist nature, the approach of Western medicine fails to take into account the bigger picture, such as the impact of a negative or traumatic birth experience on the long-term well-being of mother and child.

There are measures that can be taken to make intervention less common in hospital births. This is an important discussion that needs to take place in countries like Portugal where perinatal care is highly medicalised. Equally important is the need to tackle negative attitudes and assumptions towards women when birthing in obstetric units.

Giving birth is a private, intimate act. For the necessary hormones to be released, it requires an environment similar to making love.

Would you want to make love in a brightly lit, sterile room, being watched by one or more strangers?

There may be a few people who would. But for most people, the optimal environment for making love and, I would argue, for giving birth, would be in a very private place, where one can feel completely safe, uninhibited and without fear of interruption. Where you can moan and groan and follow the instincts that drive your body to deliver your baby safely.

Despite sex not usually taking place in a hospital, some women feel safest giving birth in that environment. While others prefer a familiar homely setting.

The other key difference between these two intimate scenarios is that in the case of birthing, many mothers desire and benefit from the presence of a trusted, experienced woman to reassure and protect her from disturbances. This may be a trusted midwife, doula, friend or family member.

I arrive at one of the key points that caused us to create the Uma Mãe Nasceu movement:

Women and their families need access to unbiased information about their options and rights in maternity care. They need support in understanding the implications of these decisions, presenting a balanced view on home birth as well as the advantages and disadvantages of giving birth in a hospital.

In order for there to be less intervention and trauma in hospital birth, we need ongoing training, dialogue and myth-busting amongst healthcare professionals and a country-wide strategy for bringing about positive change.

In accordance with basic human rights, it is vital that women have the opportunity to make all the decisions around where, how and with whom they want to birth their babies. This includes making home birth and midwifery-model care viable options in countries, like Portugal, where the infrastructure for this does not yet exist.

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