Rita Martins conta a linda historia do nascimento do seu filho. (English below)

Sempre pensei que levaria a vida como uma eterna viajante. Desde pequena que trazia em mim o desejo de levantar asas e deixar o ninho para trás. Recordo-me como me perdia com os olhar e imaginação nos mapas e globos e percorria cada contorno de um mundo ainda desconhecido com vontade de o sorver e tornar real. Mais tarde, seguindo o chamamento de infância, entreguei-me à contínua descoberta, calcorreando solos que me guiavam, emergindo-me em culturas que não a minha, desafiando limites e possibilidades. Sentia-me viva, forte, pioneira. A viagem mais verdadeira, contudo, aconteceu bem depois, já numa fase madura da minha vida, e não a bordo de um meio de locomoção, mas sim dentro de mim: em 2015, engravidei do meu filho Leo. Eis como ele nasceu…

Sê bem-vindo, Ser do Amor!

“O teu cheiro está diferente hoje!”, sussurrou-me o Pedro suavemente ao ouvido naquele acordar domingueiro. Sorrimos um para o outro e, sem pensar mais no assunto, abraçámo-nos longamente num encaixe corporal que a minha barriga orgulhosamente redonda nos permitiu.

bed linen

Naquele dia 6 de Dezembro de 2015 celebrávamos a quadragésima semana de gravidez. Iniciámos a manhã com os rituais de todos os dias de uma forma bastante serena porque sabíamos o que nos esperava no plano das tarefas para mais tarde: limpar e arrumar a casa para que estivesse pronta assim que o nosso bebé se sentisse com vontade de nascer. Durante toda a manhã, entregámo-nos ávida e afincadamente à renovação da energia presente.

Acontecia sucessivas vezes que eu, numa ansiedade positiva de quem aguarda uma dádiva, percorria as divisões da nossa casa alugada com o olhar e as pontas dos dedos das mãos para me certificar de que tudo (o que se poderia preparar num contexto destes) estava no sítio: a piscina de partos gentilmente cedida por
uma amiga querida, a cadeia de luzes quentes que iriam ruborizar o ambiente, o espanta-espíritos da nossa protecção, as mantas no sofá para permitir a experimentação de diversas posições, os rectângulos de papel estrategicamente colocados na parede com mensagens inspiradoras e encorajadoras que haviam sido
meticulosamente escritas e coloridas por mim num exercício mental de abertura à magia que estava na eminência de invadir as nossas vidas. “Falta a doula!”, pensamento que me assolava repetidamente e também naquele dia. O meu desejo era que a pessoa certa encontrasse o seu caminho até nós de forma natural. Por volta da uma da tarde, algo de muito díspar de tudo o que já havia sentido se apoderou de mim. No meu interior, a aparente calmia – só interrompida pelos sinais evidentes de que o meu bebé era cheio de vigor – dera lugar a umas movimentações ligeiras, mas certas, isentas de qualquer tipo de dor, mas presentes. “Será que…?”, pensei para mim. Tido lido a definição de contracções e o processo
fisiológico do parto vezes sem conta, ainda assim não conseguia ter certezas em relação ao que havia sentido. Como saber se uma sensação nunca antes tida corresponde seja a que for que se tenha lido ou ouvido? Essa sensação física de movimento repetiu-se e algo dentro de mim me dizia que talvez fosse esse o sinal de que o meu processo de dar vida tinha, finalmente, começado.

Excitada, fui prontamente relatar ao Pedro o que se passava. “Estou a sentir algo muito diferente do habitual. Sem querer celebrar precocemente, parece-me que o nosso bebé está a querer vislumbrar a luz do mundo em breve!”. Ficámos
ambos radiantes e rimo-nos com o facto de o nosso bebé querer vir pontualmente na data provável do parto, ao contrário da mãe, que passara grande parte da sua vida a fazer os outros esperar. Placidamente, começámos a preparar o almoço, uma deliciosa salada rica em cor e sabor, como a natureza. Eu fiz chá de folha de framboeseiro que sorvi antes do almoço. Queria sentir que o meu útero estava a receber toda a hidratação de que precisava.

Foi nesta altura que tocou o telefone. Era o meu primo Filipe a confirmar a sua vinda com a filha de 3 anos, a Adelaide, para passar o resto do fim-de-semana connosco. “Que bom, primo. Prepara-te, então, para seres a minha doula!”. Ele engoliu em seco de entusiasmo. Sim, a nossa doula estava finalmente a caminho. Fiquei extremamente feliz por irmos ter o Filipe nesta viagem empolgante. Ele iria equilibrar o feminino da ocasião já que só teria homens, inclusivamente o parteiro, a me acompanhar. O Filipe dispunha de umas sensibilidade e ternura (e um à-vontade descomplexado em as mostrar) que eu sentia precisar para me aconchegar.

As visitas anunciadas chegaram após o nosso almoço. Foi um (re)encontro genuinamente emotivo, familiar, reconfortante. Também o Pedro se sentiu mais aliviado por poder repartir a responsabilidade de cuidador, principalmente com alguém que já conhecia a parentalidade e que já tinha sabido o que é, ainda
que em circunstâncias diferentes, uma mulher amada a parir.

Eu manifestei o desejo de caminhar, seguindo o que havia idealizado como o “meu trabalho de parto”. Senti que a conexão com o que de puro nos rodeava seria essencial para o bem-estar da nossa recém-formada comunidade parideira e, sobretudo, um fluir natural de uma gravidez maioritariamente passada na natureza. Fomos passear em direcção ao nosso vale encantado, à área da aldeia onde nos havíamos encontrado e comprado um pedaço de terra. O plano original, aliás, contemplava o nascimento deste Ser do Amor numa casa que estávamos a
reconstruir, mas foi a ausência de condições propícias que nos havia feito mudar de ideias e alugar uma casa num dos “casais” da aldeia, para regozijo dos vizinhos octogenários.

Curiosamente, nesse percurso de parto, não nos deparámos com nenhum desses vizinhos, ocasião rara dado que, na maior parte das tardes, eles escolhiam a praceta para partilhar notícias do ontem e do hoje. A nossa caminhada foi
abençoada por um sol de Inverno, enfraquecido pela hora, mas caloroso e luminoso. Eu levava a pequena Adelaide pela mão, num antever excitado de que, um dia, seria o meu bebé a entrelaçar os seus dedos nos meus. Fui preenchida por um amor enorme por aquela criança enquanto projecção do meu filho.

A certa altura, pedi a todos para parar e tive de buscar amparo no Pedro, minha fortaleza naquele dia, para aguardar o que eram, sem sombra de dúvidas, contracções de parto. Após meses a questionar tudo e todos sobre o que seria uma contracção, finalmente sentia o seu poder dentro de mim e, por ser algo totalmente novo e avassalador, que fazia com que todas as minhas forças se concentrassem naquele movimento que estava a auxiliar o meu bebé a descer para a terra, fui invadida por um êxtase grandioso, que tanto me fazia contorcer toda como me colocava um sorriso rasgado nos lábios. As contracções sentidas durante o passeio foram várias e forçaram a inúmeras paragens. Eu pendurava-me no Pedro e apoiava-me nos seus ombros, deixando que a gravidade actuasse sobre mim e me conduzisse a uma posição quase de cócoras. Foi o que mais me conseguia aliviar.

Ainda que a um intervalo irregular, eu sentia que as contracções estavam a ganhar em intensidade e comuniquei que acharia melhor regressarmos a casa. O lusco-fusco da hora fez com que tivéssemos que acender as luzes já em casa. Importante para mim elas não serem agressivas à vista para permitir o meu relaxamento. Tratámos logo de acender o fogão, a noite seria longa.

Eu procurei refúgio no chão da sala, entre almofada de meditação e colchão de yoga, entre asana de gato e asana de criança, continuamente de olhos fechados. O Pedro e o Filipe começaram a preparar um lanche ajantarado, um rol de iguarias que o meu primo havia confeccionado para nos trazer. Recordo-me particularmente do sabor apurado e divinal do queijo de cajú que lentamente deixei derreter na minha boca, talvez por ter sido o meu último alimento ainda enquanto gestante. Na próxima refeição, já seria mãe (mas ainda não sabia disto, claro).

A Adelaide pressentiu que o meu estado não tinha muito a ver com a normalidade e parecia requerer mais carinho. Eu ainda tentei corresponder, mas as contracções
estavam a suceder com muita frequência e ocupavam todo o meu ser. Pedi ao meu primo para ficar com ela dada a minha incapacidade de sequer lhe prestar atenção.

Por volta das oito da noite, tocou o telefone. Eram os meus pais a querer receber notícias, precisamente na hora em que eu havia tomado a decisão de
ligar ao parteiro a avisar de que o meu trabalho de parto estaria a avançar. Entre forças “contractivas”, consegui falar primeiro com o meu pai, depois com a minha mãe, fingindo um estado normal. Não tinha tido a frontalidade de lhes contar que o meu parto seria em casa. Havia percebido logo no período pré-
concepção que gostaria que tudo fosse um processo de entrega o mais próximo do natural e fluído possível. Apesar de ter recebido uma educação racional, científica, respeitosa de um protocolo de autoridade, nunca consegui conceber que o meu parto seria num ambiente inóspito e desconhecido. O meu desejo era de acolher o meu filho nos braços na intimidade de um lar por mim escolhido, rodeada das pessoas certas para me dar confiança durante o processo de dar à luz a um novo ser do Amor. Teria sido, portanto, desafiante partilhar tais intenções com os meus pais e eu não precisava de qualquer sensação de insegurança nesta viagem. Não sei hoje se terá sido a escolha certa. Mas foi o que aconteceu.

Após os ter quase que despachado ao telefone (e que eles notaram, mas só após tudo me contaram), liguei ao parteiro. Ele tranquilizou-me e pediu-me para o manter a par da evolução sentida. Nessa altura, uma vontade indómita de me sentar e expulsar invadiu-me as entranhas e eu encaminhei-me para a casa-de-banho. Permaneci sentada durante imenso tempo, só assim me sentia confortável. Consegui limpar os intestinos por diversas vezes, a cada limpeza aliviava o peso de algo mais que estava já no caminho da saída.

Eu parecia que estava a entrar num outro mundo, em que tudo à minha volta se distanciava, se transformava em algo turvo e pouco real. Procurava contacto com o meu interior, acariciando a pele macia e distendida da minha barriga. Parecia que havia uma força que me sugava para dentro. As contracções sucediam-se a um ritmo alucinante e eu pedi ao Pedro para ligar ao parteiro e dizer-lhe que não me parecia ainda haver um compasso definido, mas que a intensidade já era bastante elevada. Senti mesmo que parecia ter chegado a hora em que precisava de assistência especializada. O Pedro assim o fez. O parteiro perguntou se queríamos que ele viesse. Eu acenei.

Era meia-noite, estávamos a virar o dia. Uma hora depois, ele chegou a nossa casa, na sua serenidade de profissional. Verificou o grau da minha dilatação e disse que eu
estava com 6cm. Auscultou o bebé e confirmou que estava tudo bem. A piscina já se encontrava preparada com água quente e o parteiro indicou-me que eu poderia emergir, se quisesse. Ao entrar na piscina, senti o desconforto da água tépida em contacto com a minha pele. Ainda assim, entrei, em queixume. O termómetro indicava 36 graus. O parteiro verificou a temperatura com a mão e rapidamente
avisou que não era a indicada para o nascimento de um bebé. Teríamos de a aumentar em pelo menos um grau e meio. Em forma acelerada, o Pedro e o Filipe começaram a aquecer panelas de água, a remover a água fria e a substituí-la. Eu sorria, entre contracções, por estar a receber tanto mimo. A temperatura foi
visivelmente aumentando e eu começava realmente a relaxar e a entregar-me ao mundo que estava a criar-se, comigo e com o meu bebé. Havia, finalmente, chegado à Partolândia.

A cada contracção, fechava automaticamente os olhos, apoiava-me nas paredes da piscina com os braços e cabeça, tudo em meu redor era difuso. Parecia só existirmos eu e o meu canal. A sala estava bastante quente, a luz era avermelhada, a música tocava ao de leve num canto da divisão. Ao antever cada contracção, consegui sentir uma miscelânea de dor e prazer, não orgásmico ou algo semelhante, mas um prazer associado à progressão natural de um processo. Em momento algum senti necessidade de aliviar fosse o que fosse, queria que tudo decorresse de forma consciente e sem intervenções além das estritamente necessárias.

.

Abracei a dor como aquela onda que chega a uma praia, para depressa se virar e procurar outra direcção. Relaxei de tal modo que acabei por adormecer entre contracções. O parteiro dormia no sofá, o Pedro e o Filipe estavam na cozinha.

A certa altura, a voz do parteiro resgata-me do transe em que me encontrava. Ele tinha-se apercebido de que as minhas contracções haviam desacelerado. Eu só percebi isso assim que ele me despertou. Ainda estremunhada, ia languidamente respondendo às suas questões. Ele pediu-me para sair da piscina por forma a reingressar no trabalho de parto que havia abrandado consideravelmente. “Nós
queremos que esse bebé nasça ainda hoje!”, brincou.

Com alguma resistência, saí da piscina ainda quente e confortável. Pensei para mim que o meu bebé, afinal, não iria nascer na água como planeado. Entreguei-
me ao sucedido, sem pensar em expectativas. Ainda na sala, comecei a experimentar posições de alívio, mas mal conseguia suportar a temperatura quente e o ar um pouco saturado.

Decidi abandonar a divisão e buscar os meus espaço e tempo no nosso quarto. Deambulei pela casa, sozinha, com o meu corpo apenas
coberto por um robe grosso e macio de Inverno. De vez em quando lembrava-me de que deveria comer e beber algo, mas não sentia vontade alguma. Não me quis forcar a nada e deixei que essa não-vontade se sobrepusesse ao que havia planeado.

A certa altura, estando apenas eu no quarto e em cima da cama, assaltou-me o que provavelmente terá sido a contracção mais forte de todas. Todo o meu âmago se
contorceu e eu apenas tive tempo de estender um toalhete impermeável para apanhar um pequeno vómito.

Curioso como, nessa fase, não tive necessidade de procurar apoio, parecia estar a desfrutar da minha autonomia no decorrer de um processo tão intenso. Sinto que passei bastante tempo assim, feliz por estarmos apenas eu e o meu bebé, juntos, a trabalhar para que ele viesse bem.

A certa altura, regressei à sala onde estavam os homens reunidos. O parteiro verificou que a minha dilatação já parecia estar completa. Eu comecei a querer expulsar aquela pressão imensa que fazia latejar tudo na minha zona pélvica. Deitei-me no sofá e, acariciada pelo Pedro, comecei a fazer forca com as contracções que ia continuamente sentindo. Não era propriamente a posição mais indicada (seria mesmo aquela da qual eu queria fugir, aquela mais comum em ambiente hospitalar…), mas algo em mim me fazia entregar a ela, talvez por começar a acusar algum desgaste físico. Eu gritava bastante, perdendo parte do vigor nos berros animalescos e exasperantes que de mim saíam.

Parecia que não havia progresso. O parteiro percebeu que a energia que eu estava a despender com os gritos poderia ser aplicada de outra maneira e explicou-me como canalizá-la. Eu não estava a conseguir nem sequer a perceber bem o que poderia fazer de diferente. O parteiro sugeriu que mudássemos de posição e foi buscar o banco de partos, algo que mais parecia uma sanita sem fundo. Ao relembrar a minha satisfação das horas preliminares, pensei que só poderia ser boa ideia tentar. Encaixei-me, com o Pedro por detrás de mim.

kaleidoscopic

Já a exasperar, pedi a mim mesma para tentar não fraquejar e acreditar nas minhas capacidades inatas. Pensei nas mulheres mães de todas as vidas que haviam passado pelo mesmo processo milhares e milhares de anos antes de mim. Senti a sua herança no meu corpo. Conscientemente, chamei todas as minhas forças e me concentrei num ponto, para o qual as enviei. Aquando da próxima contracção, entendi finalmente o que significava fazer força para expulsar e já não gritei tanto.

De repente, parecia tudo o mais natural do mundo. Foi quando a coroa se começou a ver e o anel de fogo a arder. Foi quando a verdadeira dor na forma de um ardor
intenso se fez sentir. Parecia tudo dentro de mim estar a estalar, a querer rebentar. “Já se vê a cabeça!”, comentou o parteiro em jeito de motivação. Eu mal queria acreditar que o meu bebé era real… Pus a mão e quis senti-la e fui surpreendida pela sensação de algo esponjoso. Incrédula, perguntei ao parteiro se ele tinha a certeza de que aquilo era mesmo a cabeça do meu bebé. Pacientemente, respondeu-me que sim e eu voltei a apalpá-la, com jeito, quase com receio pela aparente fragilidade e perante a galhofa do Pedro e do Filipe.

O parteiro, olhando o relógio, balbuciou: “Este bebé deverá nascer por volta das seis e meia da manhã.” Posicionou-se agachado à minha frente e ia encontrando palavras que me iam encorajando enquanto eu abria caminho ao meu bebé e apertava os cabelos fartos do Pedro e a sua cabeça contra a minha. Pedi-lhe para me acariciar os mamilos, estratégia que já tínhamos combinado adoptar. Foram várias os movimentos de tentativa de expulsão que se seguiram e eu sentia-me com cada vez menos energia para continuar. A certa altura, vi o parteiro a calçar a luva da mão direita e, quando ia a calçar a da esquerda, fiz a força que culminou com o nascer de um bebé lindo e perfeito que o parteiro, com perícia, apanhou em voo. Eram seis e meia.

Aquele ser quente e pegajoso, de olhinho aberto e mãozinhas apertadas, foi de imediato colocado no meu peito, onde se aninhou numa busca imediata de ligação.
Emitiu uns sons de quase choro, mas rapidamente ficou sereno a sentir-nos.

Eu ria que nem uma perdida, no meu êxtase de filha que tinha acabado de virar mãe, o Pedro, ainda atrás de mim, tremia e chorava desalmadamente. O nosso bebé cheirava a alfazema.

Após estes momentos é que nos lembrámos de que nem sabíamos ainda o sexo dele. O parteiro virou-o, abriu-lhe as pernas. “Um menino!”. A nossa intuição estava certa. A minha vida havia mudado para sempre.

Após uns minutos, quando o cordão umbilical deixou de pulsar, o parteiro pediu ao Pedro para o cortar. A minha placenta nasceu pouco tempo depois, no que foi um processo suave e indolor, coroado de um alívio que suplantou o nascimento do nosso menino. Era linda! Jamais havia visto algo tão complexamente magnífico. Decidi que queria enterrá-la, ali, no quintal daquela casa, para alimentar os castanheiros que nos haviam nutrido durante aquele início de Inverno.

O parteiro explicou o conceito de imprint enquanto me ajudava a colocar o nosso bebé na minha mama. Num movimento instintivo, ele agarrou-me o mamilo e começou a mamar. Que sensação divina! Aí me senti mãe, verdadeiramente mãe pela primeira vez.

Após alguns esclarecimentos, o parteiro deixou-nos na nossa intimidade familiar. Lentamente fomos para o nosso quarto e aconchegámo-nos os três na cama, pele com pele, pais com filho, origem com continuidade.

Antes de finalmente repousar, ainda senti choques de adrenalina que me puseram em estado de alerta, mas rapidamente me acalmei. Entreguei-me, rendi-me, agradeci. A Mae Natureza é tão perfeita, tão completa, e a vida tão mágica e tão única.

“Renda-se como eu me rendi. Mergulhe no que não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa qualquer entendimento.” Clarice Lispector

———————

Rita Martins tells the beautiful story of her son’s birth.

I always thought I would live my life as an eternal traveler. Since I was little, I had the desire to take flight and leave the nest behind. I remember how I got lost with my eyes and imagination on the maps and globes and traced every outline of a world still unknown with the desire to taste it and make it real. Later, following the call of my childhood, I surrendered myself to the process of continuous discovery, running through soils that guided me, emerging in cultures different from mine, defying limits and possibilities. I felt alive, strong, pioneering. The truest voyage, however, happened well afterwards, already in a mature phase of my life, and not on board any means of locomotion, but inside me: in 2015, I got pregnant with my son Leo. This is how he was born.

Be welcome, Being of Love!

“Your smell is different today!” Pedro whispered softly in my ear as we awoke that Sunday morning. We smiled at each other and, without thinking, hugged for a long time in the bodily embrace that my proudly round belly allowed us. On the 6th of December, 2015, we celebrated the fortieth week of pregnancy. We started the morning with our daily rituals in a very serene way because we knew what awaited us in planning our tasks for later: to clean and to arrange the house so that it was ready as soon as our baby felt like being born.

Throughout the morning we dedicated ourselves eagerly and keenly to the renewal of the present energy. It happened over and over again that I, in a positive anticipation of one who is waiting for a gift, went through the rooms of our rented house with my eye and the tips of my fingers to make sure that everything (that could be prepared in such a context) was in place: the birth pool kindly provided by a dear friend, the chain of warm lights that would blush the environment, the spirit chaser of our protection, the blankets on the couch to allow for the experimentation of various positions, the strategically-placed paper rectangles on the wall with inspiring and encouraging messages that had been painstakingly written and coloured by me in a mental exercise of openness to magic that was invading our lives. “The doula is missing!”, a thought that plagued me repeatedly and also on that day. My wish was for the right person to find his/her way to us naturally.

Around one o’clock, something very different from everything I had ever felt took over me. Inside me, the seeming calmness – only interrupted by the obvious signs that my baby was full of vigour – had given way to slight but certain movements, free from any kind of pain, but present. “Is this …?” I thought to myself. Having read the definition of contractions and the physiological process of childbirth over and over, I still could not be certain about what I had felt. How do you know if a feeling never experienced before corresponds to what has only been read or heard? This physical sensation of movement repeated itself and something within me told me that perhaps this was the sign that my life-giving process had finally begun.

Excited, I promptly told Pedro what was going on. “I’m feeling something very different from the usual. Without wishing to celebrate early, it seems to me that our baby is wanting to glimpse the light of the world soon! ” We both beamed and laughed at the fact that our baby wanted to come on time for the expected delivery, unlike her mother, who had spent much of her life making others wait. Placidly, we began to prepare lunch, a delicious salad rich in colour and flavour, like nature. I made raspberry leaf tea that I sipped before lunch. I wanted to feel that my uterus was getting all the hydration it needed.

It was at this point that the phone rang. It was my cousin Filipe confirming his coming with his 3-year-old daughter, Adelaide, to spend the rest of the weekend with us. “Good, cousin. Prepare, then, to be my doula! ” He swallowed with enthusiasm. Yes, our doula was finally on his way. I was extremely happy to have Filipe on this exciting trip. It would balance the feminine of the occasion since I would only have men, including the midwife, to accompany me. Filipe had a sensitivity and tenderness (and an uncomplaining ease in showing them) that I felt I needed to snuggle with.

The visitors arrived after our lunch. It was a genuinely emotional, familiar, comforting (re)encounter. Pedro was also relieved to be able to share the responsibility of caregiver, especially with someone who was already a parent and who had already witnessed, even under different circumstances, a woman giving birth.

I felt the desire to walk, according to what I had idealized as “my labour.” I felt that the connection with what was pure around us would be essential for the well-being of our newly formed birthing community and, above all, a natural flow of a pregnancy mostly spent in nature. We walked to our enchanted valley, to the village area where we had found ourselves and bought a piece of land. The original plan had included the birth of this Being of Love in a house we were rebuilding, but the absence of favourable conditions had made us change our minds and rent a house in one of the “casais” of the village, to the delight of the octogenarian neighbours.

Curiously, in this trajectory we did not encounter any of these neighbours, a rare occasion since, in the greater part of the afternoon, they chose this opportunity to share news of yesterday and today. Our walk was blessed by the winter sun, weakened by the hour, but warm and luminous. I held little Adelaide by the hand, in excited anticipation that, one day, it would be my baby wrapping his fingers in mine. I was filled with an enormous love for that child as my son’s projection.

At one point, I asked everyone to stop and I had to seek shelter from Pedro, my fortress that day, to wait for what were, without a doubt, contractions of childbirth. After months of questioning everything and everyone about what a contraction would be, I finally felt its power within me, and because it was something totally new and overwhelming, it made all my strengths focus on that movement that was helping my baby to descend to the earth. I was invaded by a great ecstasy, which caused both contortions as well as a smile on my lips. The contractions forced numerous stops on our walk. I hung onto Pedro and leaned on his shoulders, letting gravity act on me and lead me to an almost squatting position. That was how I could most easily feel relief. Although at irregular intervals, I felt that the contractions were gaining in intensity and I communicated that it would be better to return home.

Due to the twilight at that hour, we turned on the lights at home. It was important to me that they were not aggressive so I could relax. We soon tried to light the woodstove, the night would be long. I sought refuge on the floor of the room, between meditation cushion and yoga mat, between cat posture and child pose, continuously with closed eyes. Pedro and Filipe began to prepare a delicious snack, a roll of delicacies that my cousin had prepared to bring us. I am particularly reminded of the crisp and divine taste of cashew cheese that I slowly let melt in my mouth, perhaps because it was my last food while pregnant. At the next meal, I would be a mother (but I still did not know that, of course).

Adelaide sensed that my behaviour was out of the ordinary and seemed to require more affection. I tried to meet this need, but the contractions were very frequent and occupied my whole being. I asked my cousin to stay with her given my inability to even pay attention to her.

About eight in the evening, I heard the phone. It was my parents who wanted news, just when I had made the decision to call the midwife to tell him that my labour was going forward. Between “contractive” forces, I was able to speak first with my father, then with my mother, pretending to be in a normal state. I had not had the foresight to tell them that my birth would be at home. I had realized in the pre-conception period that I wanted everything to be a delivery process as close to natural and fluid as possible. Although I received a rational, scientific education, respectful of a protocol of authority, I could never conceive that my birth would be in an inhospitable and unknown environment. My desire was to welcome my son into my arms in the intimacy of a home chosen by me, surrounded by the right people to give me confidence during the process of giving birth to a new Being of Love. It would therefore have been challenging to share such intentions with my parents and I did not need any sense of insecurity on this trip. I do not know today if it was the right choice. But that’s what happened.

After that, I called the midwife. He reassured me and asked me to keep him abreast of developments. At that point, an indomitable willingness to sit down and push out invaded my guts and I headed for the bathroom. I sat for a long time, just so I felt comfortable. I was able to empty my bowels several times, each time I cleared the weight of something else that was already on the way out.

It seemed to me that I was entering another world, where everything around me was distant, turned into something murky and unreal. I sought contact with my interior, caressing the soft, distended skin of my belly. It seemed that there was a force that sucked me in. The contractions were happening at an amazing pace and I asked Pedro to call the midwife and tell him that I did not think there was a definite regularity yet, but that the intensity was already quite high. I really felt like the time had come when I needed specialized assistance. Pedro did so. The midwife asked if we wanted him to come. I waved yes.

It was midnight, the day was turning. An hour later, he arrived at our house, in his professional serenity, checked the degree of my dilation and said that I was 6cm. He listened to the baby and confirmed that everything was good. The pool was already prepared with hot water and the midwife indicated that I could submerge myself if I wanted to. As I entered the pool, I felt the discomfort of the tepid water coming in contact with my skin. Still, I went in, complaining. The thermometer indicated 36 degrees. The midwife checked the temperature with his hand and quickly advised that it was not suitable for the birth of a baby. We would have to increase it by at least a degree and a half. In an accelerated manner, Pedro and Filipe began to heat pots of water, to remove cold water and to replace it. I smiled, between contractions, I was receiving so much pampering. The temperature was visibly increasing and I was really starting to relax and give myself to the world that was growing with me and my baby. He had finally arrived in “Labourland”.

With each contraction, I automatically closed my eyes, leaning against the pool walls with my arms and head, everything around me was diffuse. There seemed to be only me and my channel. The room was quite warm, the light was red, the music played softly in a corner of the room. In anticipating each contraction, I was able to feel a mixture of pain and pleasure, not orgasmic, but a pleasure associated with the natural progression of a process. At no point did I feel the need to alleviate whatever it was, I wanted everything to proceed consciously and without interventions beyond those strictly necessary. I embraced the pain like a wave that comes to a beach, to quickly turn around and look for another direction. I relaxed in such a way that I fell asleep between contractions. The midwife slept on the sofa, Pedro and Filipe were in the kitchen.

At one point, the midwife’s voice rescued me from the trance I was in. He had realized that my contractions had slowed. I only realized it as soon as he woke me up. Still drowsy, I languidly answered his questions. He asked me to leave the pool in order to reinvigorate the labour that had slowed down considerably. “We want this baby to be born today!” He joked.

With some resistance, I left the pool still warm and comfortable. I thought to myself that my baby, after all, would not be born in the water as planned. I gave in to the event without thinking of expectations. Still in the room, I began to try different positions, but I could barely withstand the hot temperature and the slightly saturated air.

I decided to leave the room and get my space and time in our room. I wandered into the house alone, my body only covered by a thick, soft winter robe. From time to time, I remembered that I should eat and drink something, but I felt no desire at all. I did not want to force myself into anything and I let this unwillingness overlap with what I had planned. At one point, with only me in the bedroom and on the bed, I was struck by what probably was the strongest contraction of all. My entire core squirmed and I just had time to spread a waterproof wipe to catch a little vomit. Curiously, at this stage, I did not need to seek support, I seemed to enjoy my autonomy in the course of such an intense process. I feel like I spent a lot of time like this, happy that it was just me and my baby working together to make it work.

At some point I returned to the room where the men were gathered. The midwife noticed that my swelling seemed to be complete. I began to want to expel that immense pressure that made everything throb in my pelvic area. I lay down on the couch and, caressed by Pedro, began to work with the contractions I was continually feeling. It was not exactly the right position (it was the one I would have wanted to avoid, the one most common in a hospital setting …), but something in me made me be there. I screamed a lot, losing some of the vigour in the animalistic and exasperating shrieks that came from me. It seemed like there was no progress.

The midwife realized that the energy I was expending with the screams could be applied in another way and explained to me how to channel it. I was not even able to fully understand what I could do differently. The midwife suggested that we change our position and go to the birthing stool, which looked more like a bottomless toilet. As I recalled my satisfaction of the preceding hours, I thought it might be a good idea to try. I fit in with Pedro behind me.

Already exasperated, I asked myself to try not to weaken and to believe in my innate abilities. I thought of the mothers through the ages who had gone through the same process thousands and thousands of years before me. I felt this inheritance in my body. Consciously, I called all my strength and concentrated on one point, to which I sent them. At the next contraction, I finally understood what it meant to force myself to expel and I did not scream so much anymore. Suddenly, it seemed the most natural thing in the world.

It was when the crown began to be seen and the ring of fire burned. That was when the real pain in the form of intense ardor arose. It seemed like everything inside me was cracking, wanting to burst. “You can already see the head!”, commented the midwife trying to motivate me. I hardly wanted to believe that my baby was real … I put my hand on it and wanted to feel it but was surprised by the sensation of something spongy. Unbelieving, I asked the midwife if he was sure that it was really my baby’s head. Patiently, he confirmed, and I felt it again, almost fearful of the apparent fragility. The midwife, looking at his watch, stammered, “This baby should be born around six-thirty in the morning.” He positioned himself crouched in front of me and found words that encouraged me as I made my way to my baby and holding Pedro’s hair and his head against mine. I asked him to caress my nipples, a strategy we had already agreed to adopt.

There were several attempts at pushing that followed and I felt less and less energy to continue. At one point I saw the midwife pulling on his right hand glove, and as he went to put on the left, I drew the force that culminated with the birth of a beautiful and perfect baby, which the expert midwife picked up in flight. It was half past six.

The hot, sticky, open-eyed, clenched-handed being was immediately placed on my chest, where it nestled in an immediate search for connection. He made some almost crying sounds, but he quickly became serene. I laughed uncontrollably, in my ecstasy of a daughter who has just become a mother, Pedro, still behind me, trembled and cried aloud. Our baby smelled of lavender. After these moments, we remembered that we did not even know his sex. The midwife turned him, opened his legs. “A boy!”. Our intuition was right. My life had changed forever.

After a few minutes, when the umbilical cord stopped pulsating, the midwife asked Pedro to cut it. My placenta was born shortly after, in what was a smooth and painless process, crowned with relief that supplanted the birth of our little boy. The placenta was beautiful! I had never seen anything so complex as it was magnificent. I decided that I wanted to bury it there in the backyard of that house to nourish the chestnut trees that had fed us during that early winter.

The midwife explained the concept of imprint while helping me put our baby to my breast. In an instinctive movement, the baby grabbed my nipple and began to suckle. What a divine feeling! Then I felt like a mother, truly a mother for the first time.

After some clarification, the midwife left us in our familiar intimacy. Slowly we went to our room and snuggled the three of us in bed, skin with skin, parents with child, origin with continuity.

Before finally resting, I still felt adrenaline shocks that put me on alert, but quickly calmed down. I surrendered, I thanked. Mother Nature is so perfect, so complete, and life so magical and so unique.

“Surrender as I surrendered. Dive into what you do not know as I dived. Do not bother to understand. Living exceeds any understanding. ” Clarice Lispector

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s