A falta de tempo é um dos piores sintomas da nossa sociedade moderna, industrializada, acelerada.

Fast Forward, Underground Garage

A pressão do relógio, das tarefas por realizar, dos empregos em que cada segundo utilizado ou por utilizar significa produtividade ou falta dela, tudo influencia a forma como vivemos as nossas vidas pessoais e familiares, como experienciamos e, acima de tudo, como desfrutamos do que nos é dado a viver enquanto seres neste planeta.

A gravidez é igualmente influenciada por esta obsessão. Tudo começa com a determinação precisa do momento da concepção e, consequentemente, de uma data prevista para o parto. O método comummente utilizado pela medicina alopática fixa-se na contagem do tempo passado desde a data da última menstruação e, actualmente, a realização frequente de ecografias auxilia a encontrar a idade gestacional do embrião.

É aconselhável ter uma estimativa de quando o bebé irá nascer, por forma a que a mãe e restante família se possam ir preparando para o parto e também para monitorizar o normal desenvolvimento do feto. No entanto, é fácil falar de obsessão quando vários médicos se recusam a aceitar a data da relação sexual como o momento da concepção e preferem assumir que a data em questão é a da última menstruação (tal como aconteceu na minha segunda gravidez).

A pressão do tempo é mantida ao longo da gravidez nas consultas de rotina, onde os profissionais de saúde vão avisando a futura mãe de que, caso a sua gravidez se estenda além de determinada data, será necessária uma intervenção para induzir o início do trabalho de parto.

Rayyan_1wk_7

Todas as gravidezes têm uma duração diferente, pois geram um indivíduo único com características únicas. É, então, pouco realista acreditar que existe uma data de expiração de validade para a gravidez, momento fixo e estático a partir do qual o bebé «se estraga» se permanecer dentro da barriga.

Embora uma gravidez típica leve cerca de 40 semanas entre a concepção e o parto, é perfeitamente natural que existam variações saudáveis, por norma em torno de cerca de 3 semanas.

É recomendável acompanhar com atenção uma gravidez que se prolongue por mais semanas do que a média, pois existem possíveis problemas associados, como redução do líquido amniótico e envelhecimento da placenta. No entanto, a placenta pode deixar de funcionar correctamente em qualquer momento da gravidez. E, muitas vezes, uma intervenção para prevenir um bebé pós-termo pode inadvertidamente causar prematuridade, ou seja, ao intervir no natural desenvolvimento do parto é possível exacerbar problemas ou criar outros inteiramente novos.

No sistema actual, não é incomum que uma mulher tenha que lutar com os profissionais de saúde que a acompanham para que permitam que a sua gravidez termine de forma natural, sem qualquer tipo de intervenção médica.

É mesmo importante uma chamada de atenção para o conceito de consentimento informado e para os Direitos Humanos, pois muitas vezes a postura nos hospitais é de realizar um exame vaginal (vulgarmente chamado «toque») e, subrepticiamente, descolar as membranas e assim provocar o início do trabalho de parto. Não é à toa que muitas mulheres relatam, surpreendidas, como o seu trabalho de parto se iniciou «espontaneamente» poucas horas depois de uma consulta de rotina no final da gravidez.

Faz parte dos procedimentos hospitalares comuns determinar a data apropriada para indução do trabalho de parto, caso este não se inicie espontaeamente. Contudo, «a indução do trabalho de parto causa tantos problemas que devia ser uma raridade, executada apenas quando os benefícios fossem comprovadamente superiores aos riscos. A indução multiplica o risco de cesariana, de utilização de forceps, distocia do ombro, hemorragia, sofrimento fetal e aspiração de mecónio. (…) No entanto, é tão comum que quase a consideramos normal.» (1)

Como afirmado acima, com frequência, as intervenções realizadas com a intenção de evitar um bebé pós-termo têm como como consequência inadvertida um parto prematuro. E «mesmo pequenos graus de prematuridade podem provocar danos. Bebés nascidos antes da sua maturidade total podem sofrer de dificuldades respiratórias (…). Podem ser mais propensos a aspiração de mecónio. Estão em risco de hipoglicemia e podem ter dificuldade em manter a temperatura corporal. Têm risco acrescido de dificuldades na amamentação e desequilíbrios alimentares. Sofrem de cólicas e perturbações digestivas.» (2)

Assim, chegado o momento do parto, a pressão temporal intensifica-se grandemente. Focados no seu conhecimento de patologias e doenças e na ânsia de os evitar, os médicos determinam o protocolo hospitalar tendo em conta uma perspectiva voltada para o que pode correr mal, enquanto que, se deixado trabalhar ao seu próprio ritmo, o corpo de uma mulher saudável saberá parir sem dificuldades o bebé que gerou.

De forma rotineira, a parturiente vê-lhe ser administrada oxitocina sintética como aumentador das contrações. Este procedimento, ao invés de acelerar o processo, cria muitas vezes um desequilíbrio no organismo, que se vê confrontado com contrações não naturais de uma intensidade e duração muito maiores do que as provocadas pelas hormonas naturalmente geradas pelo corpo humano. Para além de perturbar o perfeito equilíbrio físico que existe em toda e cada parturiente saudável, esta intervenção traz a debilitante vertente psicológica de sentimentos de opressão pelas circunstâncias, de não conseguir aguentar, de não conseguir integrar a potência do esforço e, ultimamente, leva tantas vezes a que a mulher peça ou aceite outras intervenções subsequentes, como a epidural, ou mesmo termine em cesariana.

Pode-se dizer que, amiúde, os «tratamentos dados a mulheres pelos médicos por vezes provam ser iatrogénicos, ou seja, causam resultados ainda mais graves.» (3)

Voltando novamente ao protocolo hospitalar, é muito raro que um trabalho de parto decorra por mais do que 8 a 12 horas. Depois deste período de tempo sem que o bebé tenha nascido, a equipa intensifica os seus esforços e intervenções para tal. No entanto, nas palavras da parteira norte-americana Ina May Gaskin, o colo do útero é um esfíncter tímido. Ou seja, contrai-se na presença de estranhos ou em ambientes pouco favoráveis. E, na esmagadora maioria das vezes, a conjuntura em que decorre o parto não é a mais agradável para este evento tão íntimo: gente apressada que entra e sai, atitudes hostis, toques com frequência, isolamento, solidão e dor. Os profissionais médicos determinam então, cegos, que o parto não está a progredir.

Todavia, não é raro que uma «mulher páre o seu trabalho de parto (dilatação) – o termo médico é inércia uterina – quando se foca no exterior a si mesma.» (4) E é bem sabido que a energia presente na mesma divisão que a parturiente influencia grandemente a forma como evolui o trabalho de parto, ou seja, se alguém presente sente medo, ansiedade ou insegurança, esses sentimentos irão transportar-se para a mulher e bloquear a normal evolução do processo.

Há também que não esquecer a intervenção do próprio bebé, pois «por vezes os úteros podem deixar de funcionar apenas para que o bebé possa nascer num momento astrologicamente auspicioso. Talvez o bebé queira ser gémeos e retarde o trabalho de parto.» (5)

Uma vez nascido o bebé, mantém-se, na maioria dos casos, uma postura acelerada, em que a prioridade não é o estabelecimento tranquilo da relação entre mãe e bebé e o início da amamentação com um contacto pele com pele prolongado. O cortão umbilical é cortado de imediato e o bebé deixa de receber oxigénio de uma forma violenta, pelo que o seu sistema respiratório tem de começar a funcionar bruscamente. O bebé é levado e os primeiros momentos de uma vida em comum são passados afastados. O tempo que devia ser de pacífico enamoramento entre mãe e bebé torna-se tempo de busca de sintomas, medições, análises e procedimentos.

Mesmo o tempo para o nascimento da placenta é muitas vezes visto como preestabelecido e, quando tal não acontece nos poucos minutos subsequentes ao parto, com frequência é aplicada tracção ao cordão umbilical como forma de retirar a placenta. Este procedimento é extremamente perigoso, pois pode levar a que esta se fragmente e pedaços permaneçam no interior do ventre da mulher. Pelo contrário, se mãe e bebé forem deixados juntos e em paz, o contacto pele com pele e os sons do recém-nascido auxiliam à contração do útero e expulsão da placenta. (6)

Ultrapassado o parto, a família recolhe ao seu lar apenas para enfrentar de novo a inexorável pressão do tempo. A licença de parto conta-se facilmente em semanas e a mulher é esperada de regresso ao trabalho em poucos meses. É possível estender a licença por mais alguns meses, mas não sem graves restrições financeiras.

Existe um longo caminho a percorrer. É muito importante que as mulheres (e a sociedade em geral) abrandem o ritmo frenético das suas vidas e percebam os benefícios de um parto natural (de uma vida mais natural), em que consiste e de que forma é simultaneamente possível e normal. É vital que as mulheres deixem de ter mais confiança nos «especialistas» do que na sabedoria intrínseca dos seus corpos.

Vamos juntas reclamar o direito à melhor experiência de nascimento para nós e os nossos filhos!

(1) «A Timely Birth», Gail Hart

in MIdwifery Today, Winter 2004, Number 72

tradução livre da autora do texto

(2) ibidem

(3) «Hygieia, A Woman’s Herbal», Jeanine Parvati, 1978

tradução livre da autora do texto

(4) ibidem

(5) ibidem

(6) «The 30-Minute Third Stage», Gloria Lemay

in MIdwifery Today, Winter 2004, Number 72

tradução livre da autora do texto

—————————–

Lack of time is one of the worst symptoms of our modern, industrialised, fast-forward society.

The pressure of the clock, of tasks to perform, of jobs where every second represents productivity or its absence, everything influences the way we live our personal and family lives, how we experience and, above all, how we enjoy what is given to us as beings on this planet.

Pregnancy is also influenced by this obsession. Everything starts with the precise determining of the moment of conception and, subsequently, the inferring of an approximate due date. The method normally used by the allopathic medicine uses the counting of time since the date of the last menstruation and, nowadays, the frequent ultrasounds help to determine the embryo’s gestational age.

It’s advisable to have an estimate of when the baby is due to be born, so that the mother and the rest of the family can get ready for the birth and also in order to monitor the growth of the foetus. However, it’s easy to talk about obsession when several physicians refuse to accept the date of the sexual intercourse as the moment of conception and rather assume that the date in question is the last menstruation (it happened in my second pregnancy).

Time pressure is maintained throughout all pregnancy at the routine appointments, where the health professionals let the mother-to-be know that, if her pregnancy goes further than a determined date, an intervention will be needed in order to induce the labour.

All pregnancies take a different amount of time, because they are creating a totally unique individual with unique characteristics. It is, therefore, not realistic to believe that there is an expiration date for a pregnancy, a fixed and unmovable moment beyond which the baby will ‘go off’ if it stays inside the belly.

Although a typical pregnancy takes about 40 weeks between conception and birth, it is perfectly natural for healthy variations to exist, normally between 3 weeks on either side.

It’s recommended to closely monitor a pregnancy that spreads for several weeks beyond the average, because there are connected problems, like the reduction of the amniotic fluid and the ageing of the placenta. However, the placenta can stop working correctly at any given moment of pregnancy. And, many times, an intervention intended to prevent a postterm baby might inadvertently be a cause of prematurity, so by intervening in the natural onset of labour it is possible to exacerbate problems or to create entirely new ones.

In the present system, it’s not uncommon for a woman to have to fight the health professionals in order for them to allow her pregnancy to end in a natural way, without any medical interventions.

It’s very important here to draw attention to the concept of universal human right of informed consent, because often the hospital staff perform a vaginal exam and, surreptitiously, sweep the membranes in order to encourage labour to begin. So it’s not surprising that many women say, surprised, that their labor ‘spontaneously’ started a few hours after a routine appointment at the end of pregnancy.

It’s part of the common hospital procedures to determine an appropriate date for the induction of labor, in case it does not begins spontaneously. Yet, “induction of labour causes so many problems that it should be a rarity, performed only when the benefits can be proven to outweigh the risks. Induction multiplies the risk of caesarean-section, forceps assisted delivery, shoulder dystocia, heamorrhage, foetal distress and meconium aspiration. (…) Yet it is so common that we almost think of it as normal.” (1)

As stated above, frequently, the interventions intended to prevent a postterm baby have as an unwanted consequence a premature birth. And “even minor degrees of prematurity can cause harm. Babies born before full maturity can suffer from breathing difficulties (…). They may be prone to meconium aspiration. They are at risk of hypoglycaemia and may have trouble maintaining body temperature. They are at increased risk for nursing difficulties and feeding disorders. They suffer from colic and digestive disturbances.” (2)

Therefore, once the moment of birth arrives, the time pressure intensifies greatly. Focused on their knowledge of pathologies and diseases and wanting to avoid them, doctors determine hospital protocol with a perspective turned to what can go wrong, while, if allowed to follow its own rhythm, the body of a healthy woman will know how to easily deliver the baby it created.

Routinely, the labouring woman is administered with synthetic oxytocin to augment the contractions. This procedure, instead of helping speed up the process, often creates an imbalance as the unnatural contractions are of a greater intensity and length than the ones set in motion by the natural hormones of the human body. Besides disturbing the perfect physical balance existing in every healthy labouring woman, this intervention brings about a debilitating psychological aspect of feeling overwhelmed, of not being able to cope, not being able to integrate the strain of the effort and, ultimately, many times takes the woman to ask for or accept other interventions, like epidural anaesthesia, or even have the whole event end in a c-section.

It’s possible to say that, frequently, “treatments given to women by medical men sometimes prove to be iatrogenic, ie, causes of even more serious diseases.” (3)

However, it’s not rare “women…stop their labour (dilation) – medically termed uterine inertia – when focusing outwards.» (4) And it is well known that the energy present in the same room as the birthing mother influences greatly the way labor unfolds, so if someone present feels fear, anxiety or insecurity, those feelings will be transferred to the woman and block the normal development of the birth process.

We should also not forget the intervention of the baby himself, since “sometimes uteruses might stop functioning so as to birth the baby at an astrologically auspicious time. Perhaps the baby wants to be gemini rising and retards the labor.” (5)

Once born, the baby is treated in a way that does not prioritise the peaceful bonding of mother and baby and the beginning of breast-feeding with a prolonged skin to skin contact. The umbilical cord is cut immediately and the baby stops receiving oxygen in a violent fashion, causing its respiratory system to start working abruptly. The baby is taken and the first moments of a life in common are spent apart. A time that should be of peaceful falling in love between mother and baby becomes time for looking for symptoms, measurements, analysis and procedures.

Even the time for the delivery of the placenta has a deadline and, when it doesn’t happen in the first few minutes after the delivery of the baby, frequently traction is applied to the umbilical cord as a way to pull out the placenta. This is an extremely dangerous procedure, which can lead to a fragmentation of the placenta and pieces of it being left behind inside the woman’s womb. On the contrary, if mother and baby are left together and in peace, the skin to skin contact and the noises of the newborn will help the uterus to contract and deliver the placenta.

Having overcome labour and birth, the family retreats to their home only to face again the inappeasable pressure of time. The mother’s leave is easily counted in weeks and the woman is expected back at work in a few months. It’s possible to extend the leave for some more months, but the financial penalties are very harsh.

There is a long way to go. It is thoroughly important that women (and society in general) slow down the frantic rhythm of their lives and understand the benefits of a natural birth (of a more natural lifestyle), what it is and in what way it is simultaneously possible and normal. It’s crucial that women stop trusting ‘the experts’ more than the intrinsic wisdom of their bodies.

Let’s together reclaim the right to the best birth experience for us and our children!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s