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O parto da Sashi

A minha parteira, Françoise, afectuosamente conhecida por Mamacita, e a sua assistente, Alexandra, chegaram no dia 13 de Janeiro e instalaram-se na casa da minha vizinha até ao nascimento do nosso bebé. Numa conversa com a Mamacita no dia seguinte, declarei que me sentia finalmente pronta para que este bebé, o meu terceiro, chegasse.

Nas primeiras horas do dia 15, senti ondas de sensações que começavam no meu sacrum e se moviam para a zona do meu ventre. Estes foram os primeiros sinais físicos de que o parto se encontrava iminente.

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No entanto, a espera demoraria ainda mais nove dias, tempo durante o qual passei por uma lenta e suave preparação a muitos níveis para a chegada do bebé. Esses dias formam uma parte importante do relato de parto da minha filha. Experienciei muitas emoções diferentes, desde alegria e antecipação até tristeza e desilusão; dei belos passeios na natureza e banhei-me à meia-noite na luz leitosa da lua cheia; desenvolvi uma relações próxima e de confiança com a minha parteira enquanto tricotávamos e conversávamos até ao anoitecer daqueles entardeceres de inverno; as mulheres da minha comunidade local reuniram-se em círculo em torno de mim para abençoar esta nova etapa da minha jornada na maternidade; e também dancei e chorei sozinha, desejando que a espera terminasse para que eu pudesse conhecer o meu bebé.

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Afastar o parto das mulheres é uma mutilação da sociedade

Aquí segue uma carta recebida pela Mary Zwart, escrita por uma mãe depois do parto do terceiro filho.

Olá querida Mary,

O Jaime tem agora 3 meses e queria escrever-te desde que ele nasceu.
Ainda me sinto dentro de um sonho. Foi um longo caminho para chegar aqui mas também foi muito rápido. Ando a aprender acerca do parto natural e em casa desde que fiquei grávida pela primeira vez – tudo parecia tão bonito – mas não me atrevia a fazê-lo.

Karine et Zara

Uma vez disseste-me que a decisão de ter um parto em casa seria muito importante para mim e para a minha família mas nesse momento eu não conseguia entender. Não conseguia perceber a dimensão deste evento. Agora sei e espero que este sentimento dure por muito muito tempo. Agora tenho uma perspectiva completamente nova da maternidade, uma nova perspectiva da família, da vida, do AMOR! E também uma nova perspectiva de mim como pessoa, como mulher.

Sinto-me agora tão feliz e completa, confiante e calma – um estado que eu estava tão tão longe de atingir depois de qualquer outro dos meus partos.

Sempre me senti preocupada com o perigo de um parto em casa. Agora, para mim, o perigo é que 3 dias depois de o meu bebé nascer – apenas 3 dias – tinha um desejo quase desesperado tudo aquilo voltasse a acontecer na minha vida.

Depois desta bela experiência, umas semanas depois, tive também um sentimento de que me tornei a minha própria heroína. Não de uma forma narcisista – isso não tem nada a ver comigo – mas de uma forma como encontrei um novo eu. EU CONSIGO PARIR! Eu tenho esse poder – e apenas o descobri quando tive a minha terceira criança. Mas estou tão grata por ter chegado aqui.

Estou tão agradecida por ter tido esta oportunidade e agora tenho tanta pena que sejam tão poucas mulheres a experienciá-lo. Senti mesmo pesar que a minha mãe, depois de 4 partos, não teve a mesma oportunidade que eu tive.

E claro, estou tão agradecida a ti. Por muitas coisas, mas antes de tudo porque me ajudaste a (finalmente) desfrutar da gravidez e só isso foi de extrema importância na minha vida.
Bem haja, Mary, por tudo!
Beijos,

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Hello dear Mary,
Jaime is now 3 months old and I wanted to write to you since he was born.
It still feels like a dream. It was a long way to get there but it was also so fast. I’ve been learning about home and natural birth since I first got pregnant – everything sounded so beautiful – but I wouldn’t dare to do it myself.

Once you told me the decision of a home birth would be so important to me and my family but by that time I couldn’t understand. I couldn’t realize the dimensions of it. I know now and I hope this feeling lasts a long long time. I have now a completely new perspective of motherhood, a new perspective of family, of life, of LOVE! And also a new perspective of me as a person, as a woman.

I feel now so happy and complete, confident and calm – a state I was so so far to achieve after any of the other births.

I was always concerned about the danger of a home birth. Now, for me, the danger of it is that 3 days after my baby was born – only 3 days – I had this almost desperate feeling that I wanted all that to happen again in my life.

After this beautiful experience, a couple of weeks after, I also had a feeling that I became my own hero. Not in a narcissistic way – that’s not me at all – but in the way that I met a new me. I CAN GIVE BIRTH! I have that power – and I found that only when I had my third child. But I’m so thankful I got here.
I’m so thankful I had this chance and now I’m so sorry this is just for few women. I really felt sorry that my mom, after 4 births, didn’t have the chance I had.

And of course, I’m so thankful to you. For many things, but first of all for that you helped me to (finally) enjoy the pregnancy and this alone was of such an importance in my life.
Thank you so much, Mary, for everything!
Love,

Ajudar é não perturbar

English version below

«O parto é um processo fisiológico involuntário; não pode ser ajudado, mas pode ser perturbado.» – Michel Odent (citado de memória do curso Paramana Doula, Janeiro de 2011).

Enquanto que algumas pessoas afirmem que para muitos de nós humanos, o parto pode ser um evento emocional e espiritual, este é incontestavelmente um acto fisiológico.

Muitas vezes falamos de mulheres que são «assistidas» no processo de dar à luz ou mesmo é utilizada a frase «o dr. X fez o parto». Mas como a citação de Michel Odent demonstra, é enganador pensar ou dizer que uma mulher pode ser ajudada a dar à luz. De facto, assumir essa perspectiva pode mesmo causar mais problemas do que trazer resultados positivos.

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Pelo contrário, talvez seja mais seguro afirmar que a melhor forma como podemos apoiar um parto é ajudando a criar as condições nas quais as mudanças fisiológicas necessárias possam acontecer no corpo feminino. Isto significa limitar as perturbações que interferem com estes processos.

De forma a fazer isto, é necessário ter um conhecimento básico da fisiologia do parto.

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O relato de parto da Violeta

English version below

Inês Moura partilha o relato de parto da sua filha, Violeta.

dog on beach

No sábado, 14 de julho, senti pela primeira vez algo fora do normal. Durante todo o dia tive várias perdas de líquido, pareciam pequenos jactinhos de líquido transparente e inodor que me encharcavam as cuecas de tempos a tempos.

Não me preocupei muito, mas liguei à parteira por descargo de consciência. Ela disse que, assim isoladamente, as perdas não eram algo preocupante, portanto relaxei.

No dia seguinte não houve perdas até ao final da tarde, quando noto, ao limpar-me depois de um xixí, uma tonalidade rosada no papel. Pareceu-me muito bonito, cheirei aquela secreção e fiquei maravilhada: cheirava a fruta! Um cheiro docinho como fruta tropical, gostei ainda mais daquele liquidozinho que me dizia cá dentro que o parto se aproximava.
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Reflexões sobre o parto

Desde que participei na conferência Nascer em Amor organizada pela Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto , tenho vindo a contemplar alguns assuntos diferentes sobre a gravidez e o parto e a aprofundar o meu conhecimento dos direitos humanos nesta área.

Vivi a maior parte da minha vida no Reino Unido e como dei à luz aos meus dois filhos lá, tive a oportunidade de beneficiar de um sistema de saúde materno relativamente progressivo e liberal. Contudo, agora apercebo-me que independentemente dos seus desafios contínuos, o que experienciei foi um previlégio raro, e que aqui em Portugal como em muitos outros países no mundo, mulheres grávidas e em trabalho de parto encontram dificuldades frequentes em fazer escolhas autónomas acerca de onde, como  e com quem recebem cuidados e dão à luz os seus bebés. ais ainda, dar à luz, apesar de ser um evento diário, tornou-se num evento recheado de complicações.

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Uma Mãe Nasceu presente na ENCA

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Já amanhã Uma Mãe Nasceu  vai estar presente no encontro Nascer em Amor, organizado pela Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto, que vai ser também o encontro anual da ENCA – *European Network of Childbirth Associations. Será ”um dia de inspiração, partilha e informação, para famílias, profissionais e representantes de organizações da sociedade civil, com um programa internacional, nesta edição com a presença de ativistas de toda a Europa e a partilha de resultados inéditos da pesquisa do projeto OptiBIRTH sobre VBAC (Vaginal Birth After Caesarean – Parto Vaginal Depois de Cesariana)”.

A Roshnii Rose vai levar e entregar os nossos convites para o encontro que queremos promover entre as entidades que trabalham nesta área, a decorrer já esta primavera.  Estamos super ansiosas com esta nossa primeira presença num encontro tão importante.

Podem ler mais sobre o encontro aqui: https://www.facebook.com/events/1768703026786449/ ou https://nasceremamor.wordpress.com/.