O relato de parto do Ravi

Quando descobri que estava grávida pela segunda vez, sabia no meu coração que correria tudo bem e que estaríamos apenas nós presentes, sem necessidade de uma parteira. Esta foi uma decisão pensada, consciente e muito segura que não deve ser assumida de ânimo leve e sem profunda reflexão.

Sitzend

Convidámos quatro amigas próximas para vir na semana em que eu pensava que o parto ia acontecer. As quatro aceitaram e tivemos um divertido «festival do parto», mas a semana foi-se e bebé, nem vê-lo. Então todas foram à sua vida menos a Daniela e família, que tinham chegado antes e connosco permaneram. Foi como aconteceu e foi perfeito.

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A dor do parto

Extraído de ‘Sentidos do Nascer. Percepções sobre o Parto e Nascimento‘, uma exposição imersiva e interativa que viajou pelo Brasil em 2015. (English translation below)

Se o parto dói? Sim, sempre doeu. Desde os primórdios da humanidade. A dor, além de sinalizar que o bebé está pronto para nascer, é importante para que a mulher volte sua atenção para dentro de si mesma. A dor do parto desliga os sentidos do mundo, distancia o corpo do que é desnecessário, ajuda a dimensionar a relevância do que é trazer à luz uma nova vida.

Death/Birth V10

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O nascimento do Leo

Rita Martins conta a linda historia do nascimento do seu filho. (English below)

Sempre pensei que levaria a vida como uma eterna viajante. Desde pequena que trazia em mim o desejo de levantar asas e deixar o ninho para trás. Recordo-me como me perdia com os olhar e imaginação nos mapas e globos e percorria cada contorno de um mundo ainda desconhecido com vontade de o sorver e tornar real. Mais tarde, seguindo o chamamento de infância, entreguei-me à contínua descoberta, calcorreando solos que me guiavam, emergindo-me em culturas que não a minha, desafiando limites e possibilidades. Sentia-me viva, forte, pioneira. A viagem mais verdadeira, contudo, aconteceu bem depois, já numa fase madura da minha vida, e não a bordo de um meio de locomoção, mas sim dentro de mim: em 2015, engravidei do meu filho Leo. Eis como ele nasceu…

Sê bem-vindo, Ser do Amor!

“O teu cheiro está diferente hoje!”, sussurrou-me o Pedro suavemente ao ouvido naquele acordar domingueiro. Sorrimos um para o outro e, sem pensar mais no assunto, abraçámo-nos longamente num encaixe corporal que a minha barriga orgulhosamente redonda nos permitiu.

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O parto da Sashi

A minha parteira, Françoise, afectuosamente conhecida por Mamacita, e a sua assistente, Alexandra, chegaram no dia 13 de Janeiro e instalaram-se na casa da minha vizinha até ao nascimento do nosso bebé. Numa conversa com a Mamacita no dia seguinte, declarei que me sentia finalmente pronta para que este bebé, o meu terceiro, chegasse.

Nas primeiras horas do dia 15, senti ondas de sensações que começavam no meu sacrum e se moviam para a zona do meu ventre. Estes foram os primeiros sinais físicos de que o parto se encontrava iminente.

Full Moon Rising - EXPLORE #465!  :)

No entanto, a espera demoraria ainda mais nove dias, tempo durante o qual passei por uma lenta e suave preparação a muitos níveis para a chegada do bebé. Esses dias formam uma parte importante do relato de parto da minha filha. Experienciei muitas emoções diferentes, desde alegria e antecipação até tristeza e desilusão; dei belos passeios na natureza e banhei-me à meia-noite na luz leitosa da lua cheia; desenvolvi uma relações próxima e de confiança com a minha parteira enquanto tricotávamos e conversávamos até ao anoitecer daqueles entardeceres de inverno; as mulheres da minha comunidade local reuniram-se em círculo em torno de mim para abençoar esta nova etapa da minha jornada na maternidade; e também dancei e chorei sozinha, desejando que a espera terminasse para que eu pudesse conhecer o meu bebé.

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Ajudar é não perturbar

English version below

«O parto é um processo fisiológico involuntário; não pode ser ajudado, mas pode ser perturbado.» – Michel Odent (citado de memória do curso Paramana Doula, Janeiro de 2011).

Enquanto que algumas pessoas afirmem que para muitos de nós humanos, o parto pode ser um evento emocional e espiritual, este é incontestavelmente um acto fisiológico.

Muitas vezes falamos de mulheres que são «assistidas» no processo de dar à luz ou mesmo é utilizada a frase «o dr. X fez o parto». Mas como a citação de Michel Odent demonstra, é enganador pensar ou dizer que uma mulher pode ser ajudada a dar à luz. De facto, assumir essa perspectiva pode mesmo causar mais problemas do que trazer resultados positivos.

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Pelo contrário, talvez seja mais seguro afirmar que a melhor forma como podemos apoiar um parto é ajudando a criar as condições nas quais as mudanças fisiológicas necessárias possam acontecer no corpo feminino. Isto significa limitar as perturbações que interferem com estes processos.

De forma a fazer isto, é necessário ter um conhecimento básico da fisiologia do parto.

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O relato de parto da Violeta

English version below

Inês Moura partilha o relato de parto da sua filha, Violeta.

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No sábado, 14 de julho, senti pela primeira vez algo fora do normal. Durante todo o dia tive várias perdas de líquido, pareciam pequenos jactinhos de líquido transparente e inodor que me encharcavam as cuecas de tempos a tempos.

Não me preocupei muito, mas liguei à parteira por descargo de consciência. Ela disse que, assim isoladamente, as perdas não eram algo preocupante, portanto relaxei.

No dia seguinte não houve perdas até ao final da tarde, quando noto, ao limpar-me depois de um xixí, uma tonalidade rosada no papel. Pareceu-me muito bonito, cheirei aquela secreção e fiquei maravilhada: cheirava a fruta! Um cheiro docinho como fruta tropical, gostei ainda mais daquele liquidozinho que me dizia cá dentro que o parto se aproximava.
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